
Recentemente, uma polêmica envolvendo uma suposta amante de um jogador de futebol trouxe à tona algumas declarações extremamente problemáticas e desinformadas sobre a sexualidade e saúde reprodutiva das mulheres. A afirmação de que a gravidez “acontece no ovário” e que “não engravida se urinar após uma relação sexual” são apenas exemplos de mitos que circulam constantemente, mas que podem gerar confusão e até mesmo prejudicar a saúde sexual e reprodutiva das mulheres.
Não temos a obrigação de saber sobre anatomia, por que não estudamos medicina como afirma a propagadora das informações errôneas é uma verdade mas temos sim a necessidade de conhecer nosso próprio corpo, minimamente. Como já trouxe em outros artigos, autoconhecimento e autocuidado ajudam inclusive a manter uma boa saúde mental.
A afirmação de que a gravidez acontece no ovário está totalmente equivocada. O processo da concepção envolve uma série de passos, e o ovário é apenas uma das etapas nesse processo. Durante o ciclo menstrual, o ovário libera um óvulo, um processo chamado ovulação. Esse óvulo, então, é capturado pelas tubas uterinas (trompas de falópio), onde, caso haja espermatozoides presentes, pode ser fecundado. A fecundação, que ocorre nas tubas uterinas, é o início da gravidez, mas é no útero que o embrião se implanta e começa seu desenvolvimento.
Portanto, a gravidez não acontece nos ovários, mas sim no útero.
Pode acontecer uma gestação nas tubas uterinas, conhecida como gravidez ectópica que apresenta um sério risco para a saúde da mulher e requer atenção médica imediata. Em uma gravidez ectópica, o óvulo fecundado se implanta fora do útero, geralmente nas tubas uterinas, embora possa ocorrer em outras áreas, como nos ovários ou na cavidade abdominal. Nesse caso, se acontece a implantação do óvulo fecundado fora do útero é uma condição médica grave que exige tratamento imediato para evitar complicações de risco à saúde da mulher.
Outro mito que ainda circula por aí com frequência é a ideia de que urinar após uma relação sexual pode impedir a gravidez. Essa afirmação não tem nenhuma base científica. O único fator determinante para a gravidez é a fecundação de um óvulo por um espermatozoide. Após a ejaculação dentro da vagina, os espermatozoides podem viajar até as tubas uterinas e fecundar o óvulo. O ato de urinar após a relação sexual pode ter benefícios relacionados à higiene e à prevenção de infecções urinárias, mas não tem qualquer efeito sobre a gravidez.
Infelizmente, mitos como esse podem levar mulheres a negligenciar métodos contraceptivos eficazes, como pílulas anticoncepcionais, preservativos, ou dispositivos intrauterinos (DIUs). Eles também podem gerar falsas esperanças ou preocupações desnecessárias, o que impacta a saúde emocional e sexual da mulher.
Os efeitos das falsas informações sobre sexualidade e reprodução não se limitam apenas ao entendimento incorreto sobre a biologia do corpo. Esses mitos têm o poder de afetar negativamente a vida sexual, o autoconceito e o bem-estar das mulheres. O risco de não utilizar métodos contraceptivos eficazes, por exemplo, pode resultar em gravidez indesejada, que pode ser uma experiência emocionalmente e fisicamente desafiadora.
Além disso, essas informações distorcidas, principalmente proferidas pelos detentores de tantos likes e seguidores, perpetuam a ideia de que as mulheres devem confiar em soluções simples e “naturais” para problemas complexos relacionados à sua saúde sexual e reprodutiva. Isso pode gerar uma falta de confiança nas orientações médicas e na busca por ajuda profissional, quando, na verdade, o acompanhamento de um/a especialista em saúde sexual ou ginecologista é fundamental para o cuidado adequado.
Para proteger a saúde sexual e reprodutiva das mulheres, é essencial que haja um esforço contínuo para oferecer uma educação sexual de qualidade, baseada em informações científicas e em evidências. A desinformação pode gerar não apenas erros em decisões importantes, como a escolha de métodos contraceptivos, mas também pode reforçar estigmas e tabus relacionados à sexualidade feminina, dificultando o acesso a cuidados e tratamentos adequados.
A informação correta, fornecida de maneira clara e acessível, ajuda as mulheres a entenderem seu próprio corpo, suas opções de saúde sexual e reprodutiva e, o mais importante, a fazerem escolhas conscientes e empoderadas. Buscar fontes confiáveis, como ginecologistas, especialistas em saúde sexual e organizações de saúde, é essencial para garantir que a saúde das mulheres seja protegida e respeitada.
A propagação de mitos como os mencionados, sobre gravidez e práticas pós-sexuais, é um reflexo da falta de educação sexual adequada e do grande espaço que as informações falsas ainda ocupam nas discussões sobre sexualidade. Como sociedade, precisamos trabalhar para garantir que todas as pessoas, especialmente as mulheres, tenham acesso a informações corretas e embasadas cientificamente, de modo que possam fazer escolhas informadas sobre sua saúde sexual e reprodutiva.
Somente com uma abordagem baseada em evidências e em respeito pela autonomia das mulheres é que poderemos criar um ambiente saudável, seguro e livre de desinformação. A busca por conhecimento é uma ferramenta poderosa, e estamos todos juntos nesse caminho para promover uma sociedade mais informada e saudável.
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